DESVENDANDO O TRISAL: AMOR, CONSENSO E A EVOLUÇÃO DOS RELACIONAMENTOS
Nos últimos anos, o conceito de
relacionamento a três, popularmente conhecido como trisal, tem ganhado cada vez
mais visibilidade e gerado curiosidade. Longe de ser apenas um "triângulo
amoroso", o trisal representa uma forma de relacionamento não-monogâmico
consensual, onde a comunicação, o respeito e a equidade são pilares
fundamentais. Mas o que exatamente define um trisal? Como ele funciona na
prática? E qual a sua relação com a história dos relacionamentos humanos? Nesta
postagem, vamos explorar detalhadamente essas questões, desmistificando o
trisal e comparando-o com as dinâmicas relacionais de tempos anteriores.
O que é um trisal?
Um trisal é uma configuração de
relacionamento onde três pessoas se envolvem romanticamente e/ou sexualmente,
com o pleno conhecimento e consentimento de todos os envolvidos. Diferentemente
de um triângulo amoroso, que geralmente implica em infidelidade e falta de
transparência, o trisal é construído sobre a base da honestidade e da abertura.
É uma modalidade dentro do guarda-chuva do poliamor, que é a prática de ter
múltiplos relacionamentos íntimos simultaneamente, com a concordância de todos
os parceiros.
As características essenciais de um
trisal incluem:
•Consenso: Todos os membros do trisal
devem estar cientes e concordar com a dinâmica do relacionamento. Não há
segredos ou traições.
•Comunicação Aberta: A comunicação é
vital para o sucesso de um trisal. As regras, limites, desejos e necessidades
de cada indivíduo são discutidos abertamente e ajustados conforme necessário.
•Equidade: Embora as configurações
possam variar, a ideia é que todos os envolvidos tenham seus sentimentos e
necessidades considerados e respeitados. Não há uma hierarquia rígida de
importância entre os parceiros, a menos que seja acordado de forma consensual.
É importante notar que a estrutura de um
trisal pode assumir diferentes formas. Algumas das mais comuns são:
•Triângulo (Throuple): Todos os três
indivíduos se relacionam romanticamente e/ou sexualmente entre si. É uma
relação simétrica onde o afeto flui em todas as direções.
•V-shape: Uma pessoa (o
"pivô") se relaciona romanticamente e/ou sexualmente com duas outras
pessoas, mas essas duas pessoas não se relacionam romanticamente ou sexualmente
entre si. O pivô atua como o elo comum.
As regras específicas de um trisal são
definidas pelos próprios participantes. Isso pode incluir acordos sobre
exclusividade sexual (se o trisal é "fechado" ou permite relações com
pessoas fora do grupo), divisão de tarefas, finanças, e até mesmo a forma como
o afeto é demonstrado publicamente. A flexibilidade e a capacidade de adaptação
são cruciais para a longevidade e a saúde de um trisal.
Exemplos e dinâmicas de um trisal na prática
A dinâmica de um trisal é tão diversa
quanto as pessoas que o compõem. Não existe um modelo único, e o que funciona
para um grupo pode não funcionar para outro. A chave para o sucesso reside na
capacidade dos envolvidos de se comunicarem abertamente, estabelecerem limites
claros e adaptarem-se às necessidades e desejos de cada um.
Um exemplo comum de trisal é aquele em
que um casal já estabelecido decide abrir sua relação para incluir uma terceira
pessoa. Este foi o caso de Diogo e Graziela, que já eram casados quando
conheceram Natália. Inicialmente, a relação se desenvolveu entre Graziela e
Natália, e posteriormente, Diogo foi incluído, formando um trisal consensual. A
história deles, como muitas outras, demonstra que o amor e a conexão podem
surgir de formas inesperadas e que a abertura para novas experiências pode
enriquecer a vida afetiva [1].
"Gostamos muito da Natália, nos
tornamos amigos e o negócio fluiu. Quando nos deparamos, todo mundo estava
apaixonado. Quando a conhecemos, o Diogo olhou para mim e eu olhei para ele.
Nós pensamos 'nossa, que linda'. Os dois se interessaram e investimos",
disse Graziela [1].
Outra dinâmica importante a ser
considerada é a sexualidade dentro de um trisal. Novamente, não há regras
fixas. Em alguns trisais, a intimidade sexual pode ocorrer apenas com os três
juntos, enquanto em outros, pode haver permissão para que duplas se relacionem
separadamente. O exemplo de Diogo, Graziela e Natália ilustra essa
flexibilidade: inicialmente, a intimidade era apenas entre os três, mas com o
tempo e o aumento da confiança, eles passaram a permitir relações sexuais entre
duplas [1].
"Hoje, se estiver apenas eu e
Natália, rola entre a gente, caso sintamos vontade. Se o Diogo estiver com a
Natália, rola entre eles”, explica Graziela [1].
Além das configurações de
"triângulo" e "V-shape" mencionadas anteriormente, existem
outras possibilidades, como o "T-shape", onde um casal tem uma
relação mais forte entre si e uma relação mais tênue com o terceiro membro. A
geometria da relação pode evoluir ao longo do tempo, refletindo o crescimento e
as mudanças dos indivíduos e do grupo como um todo.
A comunicação sobre ciúmes, inseguranças
e expectativas é fundamental. Em relacionamentos não-monogâmicos, o ciúme é
frequentemente abordado não como um sinal de falha, mas como uma emoção a ser
explorada e compreendida. A compersão, que é a alegria empática que se sente
quando um parceiro experimenta prazer ou felicidade em outro relacionamento, é
um conceito que muitos poliamoristas buscam cultivar.
Trisal e a história dos relacionamentos: uma comparação
A ideia de relacionamentos
não-monogâmicos não é nova na história da humanidade. No entanto, a forma como
o trisal se manifesta hoje difere significativamente das práticas do passado. A
principal distinção reside no consentimento, na equidade e na autonomia
individual.
Poligamia vs. poliamor
Historicamente, a poligamia (um
indivíduo com múltiplos cônjuges) foi e ainda é praticada em diversas culturas
ao redor do mundo. A forma mais comum é a poliginia, onde um homem tem várias
esposas. Em muitas dessas sociedades, a poligamia estava ligada a fatores
socioeconômicos, religiosos e de poder, e frequentemente envolvia hierarquias
claras e desigualdades de gênero. As esposas, muitas vezes, não tinham o mesmo
status ou direitos, e a escolha de ter múltiplos parceiros era
predominantemente masculina. O consentimento das esposas, quando existia, era
frequentemente contextualizado por normas sociais e culturais que limitavam
suas opções.
Em contraste, o poliamor moderno, do
qual o trisal é uma expressão, enfatiza a não-hierarquia (ou hierarquia
consensual e flexível), a igualdade entre os parceiros e, acima de tudo, o consentimento
informado e contínuo de todos os envolvidos. No poliamor, todos os parceiros
têm voz ativa na definição das regras e na dinâmica do relacionamento. Não se
trata de posse ou controle, mas de uma escolha mútua de construir uma rede de
afeto e apoio. A liberdade de cada indivíduo de se relacionar com quem desejar,
desde que haja transparência e consentimento, é um pilar fundamental.
Relacionamentos abertos tradicionais vs. poliamor
Outra comparação relevante é com os relacionamentos
abertos que ganharam alguma visibilidade a partir da década de 1960 e 1970.
Embora também envolvessem a permissão para ter relações sexuais fora do casal
primário, muitas vezes esses arranjos ainda mantinham uma estrutura
hierárquica, onde o casal original era considerado o "principal" e as
outras relações eram vistas como "secundárias" ou puramente sexuais,
com menor envolvimento emocional. A comunicação, embora presente, nem sempre
era tão aprofundada quanto no poliamor contemporâneo, que valoriza a conexão
emocional e o desenvolvimento de múltiplos relacionamentos íntimos e
significativos.
A evolução do conceito de família
A emergência e a crescente aceitação de
modelos como o trisal refletem uma evolução mais ampla no conceito de família e
de relacionamento. A monogamia, embora ainda seja o modelo dominante em muitas
sociedades, está sendo cada vez mais questionada como a única forma válida de
amar e se relacionar. A busca por autonomia, autenticidade e a liberdade de
construir relacionamentos que se alinhem com os valores individuais têm
impulsionado a exploração de alternativas.
No Brasil, por exemplo, já houve
tentativas de reconhecimento legal de uniões poliafetivas, embora a legislação
ainda não as contemple expressamente. Em 2012, uma escritura pública de união
estável entre três pessoas foi lavrada em Tupã, São Paulo, baseada no afeto
mútuo e na ausência de vedação legal explícita [3]. No entanto, decisões
posteriores, como a do Conselho Nacional de Justiça em 2016, suspenderam a
lavratura de novas escrituras de uniões poliafetivas, indicando que o debate
legal e social ainda está em andamento [3].
Essa discussão legal, embora
desafiadora, demonstra a relevância crescente dos relacionamentos
não-monogâmicos na sociedade contemporânea e a necessidade de o direito se
adaptar às novas configurações familiares baseadas no afeto e no consentimento.
Em suma, enquanto a não-monogamia tem
raízes históricas profundas, o trisal e o poliamor modernos se distinguem pela
sua ênfase na ética, na comunicação transparente e no consentimento de todos os
envolvidos, marcando uma evolução significativa na forma como concebemos e
vivemos o amor e os relacionamentos. Eles representam um desafio às normas
sociais estabelecidas e um convite à reflexão sobre a diversidade das formas de
amar.
Conclusão
O trisal, como uma manifestação do
poliamor, desafia as convenções sociais e oferece uma alternativa para aqueles
que buscam formas de relacionamento que transcendam a monogamia tradicional.
Sua essência reside na comunicação aberta, no consentimento mútuo e na
capacidade de construir laços afetivos profundos e significativos com mais de
uma pessoa simultaneamente. Longe de ser uma moda passageira ou um arranjo
caótico, o trisal, quando praticado com ética e responsabilidade, pode ser uma
fonte de grande felicidade e crescimento pessoal para todos os envolvidos.
Ao comparar o trisal com as práticas
relacionais do passado, percebemos que, embora a não-monogamia não seja um
conceito novo, a abordagem contemporânea se distingue pela sua ênfase na
igualdade, na transparência e no respeito à autonomia individual. É um reflexo
de uma sociedade em constante evolução, que busca redefinir o amor e a família
de maneiras mais inclusivas e diversas.
É fundamental que a sociedade continue a
dialogar sobre essas novas configurações, promovendo o entendimento e
combatendo o preconceito. O amor, em suas múltiplas formas, merece ser
compreendido e respeitado.
Referências
[1] RELACIONAMENTO: O que é um TRISAL?
Entenda como funciona o POLIAMOR na prática. UOL. Disponível em: https://jc.ne10.uol.com.br/social1/mulher/2022/05/15013386-relacionamento-o-que-e-um-trisal-entenda-como-funciona-o-poliamor-na-pratica.html
[2] Poliamor. Wikipédia. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Poliamor
[3] O que é a família poliafetiva?
Entenda o conceito. GEN Jurídico. Disponível em:https://blog.grupogen.com.br/juridico/areas-de-interesse/civil/o-que-e-a-familia-poliafetiva/





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