MENSTRUAÇÃO AINDA É TABU? COMO A PUBLICIDADE E A MÍDIA PERPETUAM O SILÊNCIO
A menstruação, um processo biológico natural que afeta metade da população mundial por grande parte de suas vidas, ainda é um tema envolto em silêncio, vergonha e tabu. Apesar dos avanços sociais e tecnológicos, a forma como a sociedade, e em particular a publicidade e a mídia, aborda (ou evita abordar) a menstruação, perpetua estigmas que têm profundas consequências na saúde física, mental e social das pessoas que menstruam. Este artigo explora as raízes históricas e culturais do tabu menstrual, analisa como a menstruação e a mídia interagem para manter esse silêncio, discute os impactos da pobreza menstrual na saúde feminina, e examina a evolução da publicidade menstrual, destacando tanto as práticas que reforçam o estigma quanto as iniciativas que buscam quebrá-lo.
As raízes históricas e culturais do tabu menstrual
Historicamente, a menstruação tem sido
associada a impureza, mistério e até mesmo perigo em diversas culturas ao redor
do mundo. Essa percepção negativa não é um fenômeno recente, mas sim uma
herança de eventos e crenças que moldaram a visão social sobre o corpo feminino
e seus processos naturais. Por exemplo, textos religiosos antigos, como o livro
de Levítico na Bíblia (capítulo 15), descrevem a mulher menstruada como impura,
exigindo isolamento e rituais de purificação [1]. Essa visão religiosa contribuiu
significativamente para a estigmatização da menstruação, transformando um
evento biológico em um símbolo de contaminação e vergonha.
Além das interpretações religiosas,
figuras históricas como Plínio, o Velho (23-79 d.C.), em sua obra
"História Natural", descreveram a menstruação como um "veneno
fatal" capaz de causar males irremediáveis, como azedar vinhos, secar sementes
e até mesmo matar abelhas [1]. Tais narrativas, embora desprovidas de base
científica, foram amplamente difundidas e reforçaram a ideia de que o sangue
menstrual era algo a ser temido e evitado. Essas crenças levaram a práticas de
isolamento de mulheres menstruadas em várias culturas, como o chhapaudi no
Nepal, e em algumas etnias brasileiras, como os Tikuna, Wapixana, Makuxi e
Kamayurá, que possuem rituais de isolamento e tabus associados à menstruação
[1].
A antropologia cultural oferece uma
perspectiva interessante sobre a dicotomia entre natureza e cultura,
frequentemente utilizada para explicar o tabu menstrual. Sherry Ortner (1974)
argumenta que as mulheres são frequentemente associadas à Natureza devido à sua
capacidade de procriação e processos biológicos como a menstruação, enquanto os
homens são associados à Cultura. Em sociedades onde a Natureza é percebida como
algo a ser dominado pela Cultura, essa associação pode explicar a noção de
superioridade masculina e a subordinação feminina [1]. O sangue menstrual,
nesse contexto, é muitas vezes classificado como "sangue mau" por ser
derramado involuntariamente e fora de controle, em contraste com o "sangue
bom" derramado em rituais ou batalhas, que é controlado e simboliza
alianças sociais [1].
Essas ideias preconcebidas, passadas de
geração em geração, criaram um ambiente onde a menstruação se tornou um assunto
proibido, vedado e silenciado. Desde a menarca, as mulheres são ensinadas a se
comportar de maneira "apropriada" em relação à menstruação, o que
potencializa sua posição de inferioridade e contribui para o silenciamento.
Esse comportamento se manifesta em práticas cotidianas como esconder
absorventes, usar roupas escuras para evitar vazamentos e utilizar eufemismos
para evitar a palavra "menstruação", gerando desconforto, vergonha e
medo [1]. O impacto desse silenciamento é profundo, afetando a autoestima e a
percepção da própria identidade das pessoas que menstruam.
A publicidade e a mídia na perpetuação do silêncio
A mídia e a publicidade desempenham um
papel crucial na formação e manutenção das percepções sociais. No contexto da
menstruação, por muitos anos, a representação midiática e publicitária
contribuiu para reforçar o tabu, em vez de desafiá-lo. As propagandas de
produtos menstruais, em particular, são um reflexo claro de como a sociedade
lida com o tema.
Tradicionalmente, a publicidade de
absorventes evitava qualquer menção direta à menstruação ou ao sangue. O
líquido menstrual era substituído por um misterioso líquido azul, e as mulheres
eram retratadas em cenários idílicos, praticando atividades físicas ou vestindo
roupas claras, sem qualquer sinal de desconforto ou da realidade do ciclo. Essa
abordagem, embora visasse a aceitação do produto, na verdade, reforçava a ideia
de que a menstruação é algo a ser escondido, limpo e higiênico, mas nunca
discutido abertamente [1].
Exemplos notáveis dessa perpetuação do
silêncio incluem:
•Sempre Livre (1987): Uma campanha
icônica com a atriz Fernanda Torres a retratava como uma mulher moderna e
ocupada, mas sempre em roupas brancas e com um tom de voz sereno. A palavra
"menstruação" era evitada, e a imagem transmitida era de uma mulher
que, apesar de menstruar, não demonstrava nenhum sinal disso [1].
•Nova (1998): A propaganda com a
jogadora de vôlei Ana Paula Henkel treinando com calças brancas também ignorava
a realidade de muitas mulheres que evitam roupas claras durante o período
menstrual por medo de vazamentos [1].
•Naturella (2011): Com a atriz Paolla
Oliveira, a campanha era repleta de clichês, mostrando-a saltitando em um campo
com um vestido branco. A menstruação era referida como "naqueles
dias", romantizando o período e desconsiderando qualquer desconforto real
[1].
Essas representações, ao longo das
décadas, moldaram a percepção pública, ensinando que a menstruação é um assunto
privado, quase vergonhoso, que deve ser gerenciado discretamente. O silêncio
imposto pela mídia e pela publicidade contribuiu para que gerações de pessoas
que menstruam crescessem com a sensação de que algo natural em seus corpos era,
na verdade, um fardo ou um segredo a ser guardado.
A pobreza menstrual e seus impactos na saúde feminina
O tabu menstrual, somado a fatores
socioeconômicos, agrava um problema sério conhecido como pobreza menstrual.
Este termo refere-se à falta de acesso a produtos de higiene menstrual
adequados, saneamento básico e informações sobre saúde íntima [2]. No Brasil, a
situação é alarmante, com milhões de pessoas que menstruam enfrentando
dificuldades significativas:
•Mais de 700 mil jovens não possuem
acesso a banheiro e chuveiro em casa [2].
•Cerca de 4 milhões de jovens não têm
acesso a itens básicos de higiene menstrual nas escolas [2].
•Aproximadamente 200 mil estudantes não
conseguem cuidar de sua menstruação adequadamente no ambiente escolar [2].
Os impactos da pobreza menstrual são
multifacetados e afetam profundamente a saúde feminina:
Saúde física
A falta de higiene adequada durante o
período menstrual pode levar a sérios problemas de saúde. O uso prolongado de
produtos inadequados ou a ausência de troca regular pode resultar em infecções
urinárias, candidíase, irritações na pele, alergias e, em casos mais graves, a
Síndrome do Choque Tóxico, uma condição rara, mas potencialmente fatal [2]. A
dignidade e o bem-estar físico são diretamente comprometidos quando o acesso a
produtos e infraestrutura de higiene é negado.
Saúde mental
O estigma e a vergonha associados à
menstruação, exacerbados pela pobreza menstrual, têm um impacto significativo
na saúde mental. Jovens que não podem gerenciar sua menstruação de forma digna
frequentemente se isolam, faltam à escola e desenvolvem problemas de
autoestima. O constrangimento de não ter acesso a produtos adequados ou de
sofrer vazamentos em público pode gerar ansiedade, depressão e um sentimento de
exclusão social [2]. A falta de diálogo e educação sobre o tema contribui para
que esses problemas se perpetuem.
Problemas sociais e educacionais
A pobreza menstrual não é apenas uma
questão de saúde individual, mas um problema social que impede o
desenvolvimento e a participação plena de pessoas que menstruam na sociedade.
Pesquisas indicam que 62% das jovens já faltaram à escola ou a outros compromissos
devido à menstruação, e 73% sentem constrangimento em ambientes públicos [2].
Essa ausência escolar impacta diretamente o desempenho acadêmico e as
oportunidades futuras, perpetuando um ciclo de desigualdade. A falta de
dignidade menstrual impede que futuras profissionais, cientistas e líderes se
desenvolvam plenamente, limitando seu potencial e o progresso social como um
todo.
<img
src="/home/ubuntu/post_images/pobreza_menstrual.jpg"
alt="Infográfico sobre Pobreza Menstrual" width="600"/>
*Imagem: Infográfico ilustrando os impactos da pobreza menstrual.*
Quebrando o silêncio: novas abordagens na publicidade menstrual
Felizmente, nos últimos anos, tem havido
um movimento crescente para desafiar o tabu menstrual e promover uma
representação mais realista e positiva da menstruação na mídia e na
publicidade. Marcas e ativistas têm trabalhado para normalizar o tema, utilizando
campanhas que abordam a menstruação de forma aberta e honesta.
Um marco importante nessa mudança foi a
campanha da marca suíça Libresse (conhecida como Bodyform em alguns mercados) a
partir de 2016. A Libresse foi pioneira ao utilizar líquido vermelho para
representar o sangue menstrual em suas propagandas, em vez do tradicional
líquido azul [1]. Essa simples, mas revolucionária, mudança visual ajudou a
desmistificar o sangue menstrual e a torná-lo mais real.
Suas campanhas, como "Blood" e
"Blood Normal", retrataram episódios cotidianos da menstruação sem
esconder a realidade, como a troca de absorventes em um jantar ou em uma sala
de aula. A mensagem "No blood should hold us back" (Nenhum sangue
deveria nos deter) tornou-se um lema poderoso, incentivando as pessoas que
menstruam a viverem suas vidas plenamente, sem vergonha ou restrições impostas
pelo ciclo menstrual [1].
<img
src="/home/ubuntu/post_images/libresse_publicidade.jpg"
alt="Publicidade Libresse" width="600"/> *Imagem:
Exemplo de publicidade da marca Libresse, quebrando o tabu menstrual.*
Outras marcas e iniciativas também têm
seguido essa tendência, investindo em educação, conscientização e na promoção
da dignidade menstrual. A publicidade moderna tem buscado mostrar a diversidade
de experiências menstruais, incluindo a menopausa e a menstruação em homens
trans, e abordando temas como a sustentabilidade dos produtos menstruais e a
importância do acesso universal a eles. Essas novas abordagens são cruciais
para desconstruir o tabu e criar uma sociedade mais inclusiva e informada sobre
a saúde feminina.
Conclusão
O tabu menstrual é uma construção social
complexa, enraizada em crenças históricas e culturais que associaram a
menstruação à impureza e à vergonha. A publicidade e a mídia, por muito tempo,
contribuíram para perpetuar esse silêncio, utilizando representações
irrealistas e eufemismos que reforçavam a ideia de que a menstruação é algo a
ser escondido. As consequências desse tabu são vastas, impactando a saúde
física, mental e social das pessoas que menstruam, e agravando problemas como a
pobreza menstrual.
No entanto, há um movimento crescente
para desmistificar a menstruação e quebrar o silêncio. Campanhas publicitárias
inovadoras, como as da Libresse, que utilizam o sangue vermelho e retratam a
menstruação de forma realista, são exemplos de como a mídia pode ser uma
ferramenta poderosa para a mudança social. A educação, a conscientização e a
representação honesta são fundamentais para normalizar a menstruação e garantir
que todas as pessoas que menstruam possam viver com dignidade e sem vergonha. É
imperativo que continuemos a desafiar os estigmas e a promover um diálogo
aberto sobre a saúde feminina, para que a menstruação deixe de ser um tabu e se
torne, finalmente, um processo natural e aceito por todos.
Referências
[1] Miranda, B. C. B., & Fernandes,
E. R. (2020). MENSTRUAÇÃO E SUAS REPRESENTAÇÕES NA MÍDIA: UMA ANÁLISE SOBRE
SANGUE, TABU E GÊNERO. Diálogos: Economia e Sociedade, 4(2), 261-273.
Disponível em: https://periodicos.saolucas.edu.br/dialogos/article/download/489/382
[2] Instituto Brasil Social. (s.d.). Pobreza
Menstrual: Quais os impactos na vida das mulheres? Disponível em:



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