VÍCIOS E DEPENDÊNCIAS - POR QUE A SOCIEDADE AINDA CRIMINALIZA EM VEZ DE TRATAR?
A dependência química é,
inequivocamente, uma doença crônica e multifatorial, conforme a classificação
da Organização Mundial da Saúde (OMS) 1. Ela não é uma falha moral ou uma
simples escolha, mas sim uma condição complexa que envolve fatores biológicos,
genéticos, comportamentais e psicossociais. No entanto, a resposta social e, em
grande parte, a política pública, ainda se inclinam perigosamente para a criminalização
e o estigma, perpetuando um ciclo vicioso que ignora a ciência, a eficácia do
tratamento e a dignidade humana.
O paradoxo da saúde pública vs. a
repressão
No Brasil, o Sistema Único de Saúde
(SUS) reconhece a urgência do tratamento. Os dados são claros: em 2021, foram
registrados mais de 400 mil atendimentos a pessoas com transtornos mentais e
comportamentais decorrentes do uso de álcool e outras drogas, representando um
aumento de 12% em relação ao ano anterior 1. Este volume crescente de
atendimentos demonstra que a dependência é uma questão de saúde pública massiva
que exige uma rede de atenção robusta.
A porta de entrada para o cuidado é a
Atenção Primária à Saúde (APS), que atua em conjunto com os Centros de Atenção
Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS-AD) e a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
Essa estrutura, quando fortalecida, oferece o caminho para a recuperação e a
reinserção social, tratando a pessoa em sua integralidade.
O custo humano e social da
criminalização
Quando a sociedade e o Estado falham em
priorizar o tratamento, o problema é empurrado para a esfera da segurança
pública, gerando um custo humano e social incalculável. A criminalização não
apenas penaliza o sintoma da doença, mas também intensifica o estigma, que é um
dos maiores obstáculos para a busca por ajuda. O Ministério da Saúde alerta que
o estigma e a falta de informação impedem que muitas pessoas procurem os
serviços de saúde disponíveis.
Além disso, a criminalização alimenta um
ciclo perverso de vulnerabilidade e violência. Estudos apontam a trágica
interconexão entre dependência e criminalidade: uma pesquisa com dependentes em
tratamento revelou que 60% deles relataram ter cometido algum crime em
decorrência do uso de drogas, com 20,6% cometendo infração penal e 26,6%
praticando violência. A dependência, nesse contexto, transforma relacionamentos
familiares, causa prejuízos laborais e sociais, e contribui diretamente para o
desenvolvimento da delinquência.
A criminalização não é a cura; é a
perpetuação da doença e da exclusão. Ela sobrecarrega o sistema prisional com
indivíduos que necessitam de cuidado médico e psicossocial, não de
encarceramento.
A mudança de paradigma: trocar grades
por cuidado
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Abordagem Atual (Criminalização) |
Abordagem Necessária (Saúde Pública) |
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Foco: Punição, repressão e
encarceramento. |
Foco: Tratamento, cuidado,
reabilitação e reinserção social. |
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Visão: Dependência como falha moral ou
crime. |
Visão: Dependência como doença crônica
e multifatorial. |
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Consequência: Superlotação carcerária,
estigma, exclusão social e aumento da violência. |
Consequência: Redução de danos,
recuperação, qualidade de vida e economia de recursos públicos a longo prazo. |
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Ferramentas: Polícia e Sistema
Prisional. |
Ferramentas: CAPS-AD, Atenção
Primária, Equipes Multiprofissionais. |
A luta contra a dependência é uma luta
por saúde, dignidade e direitos humanos. É hora de trocar as grades pelo
cuidado, o julgamento pela compreensão e a exclusão pela inclusão.



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